terça-feira, 7 de julho de 2009

20 anos de Jornalismo

Família Chaves Lemes

Maria Gladir, Eva Enedir, Elvira (mãe), João Loredi (no colo), Tomaz Albino (pai) Idalina Anita, Terezinha de Jeus, Marlene de Fátima e Adão Osmar.


(MAIS SOBRE MEU LIVRO)

O bastardo

A princípio, fui bem recebido lá na tia Otelina. Ela era uma mulher morena, com seus cabelos compridos, meio enrolados. Mantinha-os presos em forma de coque. Falava pouco e piscava o tempo inteiro. Mas não eram piscadelas. Ela piscava forte, chegava a franzir a testa. Nos primeiros meses que sucederam minha chegada ganhei muita “ganja” de todos os três.

A saudade da mãe, dos irmãos, da tia Elvira batia cada vez mais forte. Até pensei em fugir, mas de que jeito? Sei lá onde eu estava. Além do mais, como uma criança de seis anos poderia pegar ônibus e ir embora? Diante dos fatos e da dura sorte, fui ficando, ficando... E os tratos foram mudando, mudando... Logo eu me vi sendo xingado, surrado e humilhado.

Lembro que seguidamente apanhava à toa. Meu tio brigava com a tia, eu ficava nervoso. Queria me esconder, sair correndo. Minha madrinha Carlota tentava me acalmar. Carinho era coisa rara naquela casa.

Ninguém com ninguém. Muito menos comigo, o filho bastardo, como os vizinhos e amigos pensavam que eu fosse, justo por ser loiro, quase igual ao meu tio. Ela, sendo morena, dava a entender que não se tratava da mãe legítima e que o pobre João aqui era filho de seu marido com outra qualquer. Talvez fosse esse o pivô para justificar tanta amargura. Mas e agora? Voltar, não dava. O destino precisava ser cumprido.

E lá fiquei. Sem ver outras pessoas, sem coleguinhas para brincar com meus sabugos de milho e carretéis de linha. Passeio, era só nos vizinhos a mais de légua, mesmo assim, só uma vez por mês. Acabava me entretendo com as galinhas, cuidando dos porcos, descascando milho ou andando pelas lavouras ajudando a encontrar as olheiras de formiga.

Pena que na hora que eu achava um formigueiro, a tia não me dava o prazer de pulverizar veneno nelas com aquela bombinha, saída de uma pequena geringonça vermelha. A tal máquina de matar formigas.

E tinha que fazer outras tarefas, como puxar água de porongo. Uma vez o porongo estourou na chegada em casa. Por pouco não apanhei. Graças à madrinha Carlota, a qual gritou para minha tia que já vinha de vara na mão.

- Não, Otelina! Ele não quebrou por gosto. O porongo estourou na sua mão, bem aqui, na chegada.
- Que sorte a dele, do estrago ter sido aqui. Porque se o estrago fosse lá embaixo, no olho d’água, queria ver que desculpa iria dar.

Ufa! Escapei dessa. Mas e das outras vezes? Cada coisa malfeita, uma arte, um deslize apenas, eu era punido com rigor. Vara de marmelo, de pessegueiro, de pitangueira, tudo virava instrumento de tortura nas mãos da tia Otelina. Ainda havia os temíveis puxões de orelha e tantas outras formas de aniquilar uma criança.




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