segunda-feira, 20 de julho de 2009

20 anos de Jornalismo


Dois anos de angústia

Foram dois anos morando em Capão do Cipó (lugarejo entre Palmeira e Panambi). Presumo, aquele talvez tenha sido o mais amargo período da minha vida, justamente a parte que deveria ser a mais gostosa da infância. Foram quase 24 meses distantes da civilização. Para ir à cidade, que era Condor, uma vila mais próxima, só de carroça ou de aranha, uma espécie de carroça com duas rodas grandes, puxadas por cavalo. Ir à vila era o nosso tour. Dava para ver os carros e sonhar mais de perto com um pastel ou picolé. No dia em que eu ganhava uma iguaria dessas, voltava para casa renovado. Como se aquilo fosse um antídoto contra a rotina. Pelo menos até a outra viagem, sé é que ela aconteceria de novo.

Minha vida lá fora parecia um isolamento da terra. Sem rádio, sem relógio. Só vendo bichos. Às vezes, a tristeza era insuportável. Como eu chorei sozinho, escondido pelos matos nas proximidades da casa da tia Otelina! Quantas vezes eu avistei ao longe um veículo, fazendo encher meus olhos e acreditar ser minha mãe que poderia estar vindo me ver, ou, para ser mais otimista, até me levar de volta. Mas nada disso acontecia. Nunca era ela no tal carro e só se via o risco de poeira no corredor. Um misto de desprezo tomava conta de meu ser. A mãe nunca ia lá fora. Lembro-me vagamente de uma visita sua.

Chegou trazendo minha irmã mais nova pela mão, uma guriazinha loira, dos cabelos encaracolados chamada Anilda, e que atendia por Tuta. Por instantes pensei que a visita significasse o fim naquela situação de angústia e solidão. Nem lembro se ela demorou. Só sei que, ao vê-la se despedindo dos meus tios, vim correndo para perto assuntar se não me levaria com ela. Bem a tempo de ainda ouvi-la dizendo:
- Vou ter que deixar esta guria aí também. A coisa não anda boa por lá.
Aquela expressão que saíra de forma arrenegada, quase igual a um lamento, enfim, respondia à minha pergunta sobre um pretenso regresso a Cruz Alta. Bem, mas pelo menos a minha irmã estava comigo.

A dupla Tite e Tuta novamente estava formada. Eu, com 7, ela, com seus 5 anos. Idade que a impedia de me fazer grandes companhias, mas já me dava ao luxo de vislumbrar nela um resquício do antigo lar. Com a Tuta na minha frente, eu poderia lembrar das brincadeiras com os irmãos mais velhos, das brigas e até do seu choro. Como a Tuta era chorona! E lá na tia Otelina foi pior. Chorava o dia inteiro e, à noite, ainda mijava na cama. O seu colchão, feito de estopa, aquelas bolsas de ensacar soja, amanhecia encharcado. Até que, um dia, o tio falou:

-Se ela mijar na cama de novo vou deixá-la até ao meio-dia com a calça-plástica na cabeça.
Fiz uso de minha costumeira desconfiança: Capaz! Ora se ele vai fazer isto com ela. Ah, não faz! E ele fez. Deixou a pobre, não digo até ao meio-dia, mas umas boas horas da manhã com a tal calça enfiada na cabeça feito um chapéu fedorento. Durinha de urina! Aquilo me cortou. Senti um remorso tão grande de não poder fazer nada para ajudá-la.

Que espécie de irmão era eu? Mas a verdade era uma só. Eu não podia retrucar, afinal, tinha que proteger meu lombo também. Ainda mais que, noutra noite, a mijada foi minha. E na bombacha nova, de pura casimira, tecido nobre. A tia Otelina havia ganho a peça de um menino do vizinho que crescera mais do que eu.
Bom, nem precisava dizer que não agüentaram o choro da Tuta e nem ela os ranços deles. Enviaram uma carta à mãe pedindo que a levasse embora. Novamente a dona Elvira apareceu e a carregou. Lógico, eu fiquei. Como sempre!

Nenhum comentário: